sexta-feira, abril 18, 2008

Uma Noite Qualquer

"Hoje, quando cheguei no aconchego do lar
Fugitivo dos carros velozes, da falta de ar
Me sentei no sofá macio, de tons magenta
E preparei um café preto, forte, com menta.

A casa estava escura. Vazia.
Do pão, só havia uma fatia
E de min, cansado, esgotado
Só a penumbra de um ser acabado

O aperto no meu peito era doloroso
Mas eu não negava ser um tanto prazeroso
E fui me lembrando das pessoas que amava
Dos rostos, jeitos, carinhos que adorava
Dos abraços que há tempo não recebia
Dos amores secretos, que ninguém sabia

Fiquei no sofá, tênue, por horas incontáveis
Escolhendo viver os momentos amáveis
Dos quais, nunca havia me esquecido"

Lincon Zarbietti

quinta-feira, abril 10, 2008

Contemporanismo Forense

"Os pesados bondes das praças centrais
Percorrem esquinas, caminhos vitais
Os testas de ferro, capachos do mal
Escondem vilões no escuro letal

Cabeças redigem infâmes mentiras
Pedestres que fogem do ócio dos tiras
Verdades horrendas nas peles nuas
Escuro dos prédio, sangue das ruas

E a sombra do medo, a falta de paz
A dor investida na boca voraz
Sufocam pessoas no ímpeto muro
Da desarmonia do abismo escuro"

Lincon Zarbietti

terça-feira, abril 08, 2008

Até Pensei

"Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia, toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que, de tolo, até pensei que fosse minha
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu andava pobre, tão pobre de carinho
Que, de tolo, até pensei que fosses minha
Toda a dor da vida me ensinou essa modinha"

Chico Buarque de Hollanda

quinta-feira, abril 03, 2008

Soneto da Separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Vinícius de Moraes e Tom Jobim

Eu, e meu Eu Revoltado

"- Não vale a pena se vingar
ser vilão, perder tempo!
- Não! Não vale a pena sofre por amar!
Amar o vazio, raso, sopro de vento

- Tem que olhar pra frente
Erguer a cabeça, homenagear a si mesmo
- E do que vale apanhar e ser decente
fazer o bem a esmo?

- Melhor é viver em paz (meu caro)
Sentir a brisa no rosto
- E ser enganado de forma voraz
Se olhar no espelho e só ver desgosto...

- Pensando bem, vamos fazê-la chorar!
Sentir as tristezas e desgostos variados!!!
- Ora amigo, calma! Pra que se exaltar?
Acho melhor, ser pelo menos, educado..."

Lincon Zarbietti

Eu, Você, e meu Eu Criado

"O que ficou do desamor
lembranças cruas da dor
A boca seca de vingança
que nem o tempo faz mudança

De tudo que foi paixão
o sopro quente no coração
Fez-se pó errante de desgosto
de vingança que almeja teu víl rosto

O vermelho paixão mudou de tom
Virou vermelho raiva, escuro sem som
Ânsia maldita
Confusão infinita

De fato, não sou eu escrevendo
este, você criou, adestrou sofrendo
Na palma da mão obscena
que engana, é santa, faz cena

E dentro do turbilhão emocional
fui feito irracional
E agora, pensando novamente
vai ser diferente!

Sem rima, sem emoção
ódio, raiva, dor, tesão
No simples passo sem insegurança
Amo, descrença e Vingança!"

Lincon Zarbietti